Algumas das maiores questões no caminho do Yoga poderiam ser associadas com duas palavras:
entrega e serviço.Só entregando servimos.Só servindo conseguimos entregar.
O ideal do Karma Yoga é mesmo um mistério. Muitos anos atrás,vivendo em um ashram,pude experimentar um pouco das sutilezas que envolvem esta prática. Recém chegado, meu primeiro trabalho era de ajudar a lavar a louça (e suas gigantescas panelas!) após as refeições. No início não gostava tanto da tarefa, pois acabava perdendo o horário da meditação noturna, que ocorria após o jantar.Mas tudo bem, ao sair a impressão era de ter a mente "zerada",com resultados certamente melhores do que trinta sofridos minutos sentado "em silêncio..."
Com o passar dos dias, já me achava o melhor lavador de panelas das redondezas,afinal retirava cada sujeirinha com precisão cirúrgica. Ah,missão cumprida! Eis que o diretor me mudou de "seção", passando agora a cuidar da compostagem do lixo etc. Mesmo processo: que cheiro ruim, mãos sujas, sacolas que arrebentavam, horários de prática sacrificados e assim por diante. E assim foi na carpintaria, no escritório e por fim (agora sim!) dar aulas de Yoga para os hóspedes do ashram...
Colocava uma roupa limpíssima, fazia pranayama por vinte minutos antes,dirigindo-me para a aula com a sensação de ter recebido uma licença prêmio. Como a cada aula os alunos mudavam, não havia espaço para desenvolver lá muita interação com eles. Da mesma forma, frequentemente um outro professor era chamado para dar a "minha aula",o que ajudava ainda mais nesse desapego. Logo percebi que a idéia de ser "o professor", com "meus alunos" não passava de uma colorida ilusão evanescente.
Não fossem as minhas experiências durante esse período,talvez estivesse acreditando até hoje nesse conto de fadas. Na verdade as pessoas buscam uma prática,um ensinamento e por último um professor. Se couber a este último inverter a ordem, ele pode muito bem levá-las a crer no contrário. A partir daí inicia-se uma poderosa combinação de necessidade de exercer poder da parte de um com a carência de orientação da parte de outro. Uma relação pessoal co-dependente substitui a troca naturalmente impessoal e abnegada de antes. Foi-se o Yoga, ficando apenas o Karma associado a toda a vasta gama de emoções que este quadro sugere.
Os maiores Gurus da Índia são famosos por um tratamento especial concedido aos mais ambiciosos aspirantes. Sim,existe ahamkara (ego) dos dois lados - a única diferença sendo que o ego do mestre já foi polido pelos ventos do tempo, da prática e da subsequente realização. O ego do aspirante está cheio de protuberâncias irregulares e ele não reconhece-as em si mesmo.Precisa de uma voz, de um espelho ou de uma atividade que permita enxergá-las nitidamente, para em seguida removê-las assim como as manchas das panelas.Sem esse trabalho fica bastante delicado o estudo e a interpretação dos ensinamentos mais profundos contidos nos shastras (escritos sagrados).
Outra questão acontece quando o ego realmente acredita que está servindo.Se isto lhe ocorrer - cuidado - perigo adiante. O orgulho de servir pode se tornar doentio, ao ponto de ignorar a real necessidade do serviço. É como o orgulho de fazer muitos asanas ou passar várias horas "meditando"...
Passada a febre de protagonizar qualquer atividade que auto-enalteça nossas capacidades naturais ou duramente adquiridas, podemos enfim repousar na paz da entrega.
Esta não pede nada tangível aos olhos,mas concede a paz mental perene - o que segundo Swami Sivananda, é o único sinal palpável de"progresso espiritual". Sim,essa paz é bem diferente da neutralidade letárgica relacionada ao tama guna. Ela é viva, dinâmica e reluzente. Quem estiver na presença de uma pessoa por ela preenchida, poderá facilmente sentir a sua força.
Em um mundo (mental,físico,virtual) tão bombardeado por anúncios e propaganda em geral, o karma yogi é um agente silencioso e invisível. Seus atos podem não ser presenciados a luz do dia, mas o efeito da sua presença é suavemente sentido por aqueles que recebem a bênção de suas ações.
Na entrega do serviço a um bem maior que seus próprios caprichos, o ser humano aproxima-se da condição divina (divya akshara) que lhe é inerente.
नायमात्मा प्रवचनेन लभ्यो
न मेधया न बहुना श्रुतेन।
यमेवैष वृणुते तेन लभ्य-
स्तस्यैष आत्मा विवृणुते तनूं स्वाम्॥ ३॥
nāyamātmā pravacanena labhyo
na medhayā na bahunā śrutena |
yamevaiṣa vṛṇute tena labhya-
stasyaiṣa ātmā vivṛṇute tanūṁ svām || 3||
Você não pode obter o conhecimento da Alma Suprema
pelos meios da razão,erudição ou estudo dos Vedas
Mundaka Upanishad 3.2.3:
Por isso os verdadeiros yogis tornam-se leves e bem-humorados,
como bem demonstra a foto abaixo...
Om Tat Sat
Gopala
entrega e serviço.Só entregando servimos.Só servindo conseguimos entregar.
O ideal do Karma Yoga é mesmo um mistério. Muitos anos atrás,vivendo em um ashram,pude experimentar um pouco das sutilezas que envolvem esta prática. Recém chegado, meu primeiro trabalho era de ajudar a lavar a louça (e suas gigantescas panelas!) após as refeições. No início não gostava tanto da tarefa, pois acabava perdendo o horário da meditação noturna, que ocorria após o jantar.Mas tudo bem, ao sair a impressão era de ter a mente "zerada",com resultados certamente melhores do que trinta sofridos minutos sentado "em silêncio..."
Com o passar dos dias, já me achava o melhor lavador de panelas das redondezas,afinal retirava cada sujeirinha com precisão cirúrgica. Ah,missão cumprida! Eis que o diretor me mudou de "seção", passando agora a cuidar da compostagem do lixo etc. Mesmo processo: que cheiro ruim, mãos sujas, sacolas que arrebentavam, horários de prática sacrificados e assim por diante. E assim foi na carpintaria, no escritório e por fim (agora sim!) dar aulas de Yoga para os hóspedes do ashram...
Colocava uma roupa limpíssima, fazia pranayama por vinte minutos antes,dirigindo-me para a aula com a sensação de ter recebido uma licença prêmio. Como a cada aula os alunos mudavam, não havia espaço para desenvolver lá muita interação com eles. Da mesma forma, frequentemente um outro professor era chamado para dar a "minha aula",o que ajudava ainda mais nesse desapego. Logo percebi que a idéia de ser "o professor", com "meus alunos" não passava de uma colorida ilusão evanescente.
Não fossem as minhas experiências durante esse período,talvez estivesse acreditando até hoje nesse conto de fadas. Na verdade as pessoas buscam uma prática,um ensinamento e por último um professor. Se couber a este último inverter a ordem, ele pode muito bem levá-las a crer no contrário. A partir daí inicia-se uma poderosa combinação de necessidade de exercer poder da parte de um com a carência de orientação da parte de outro. Uma relação pessoal co-dependente substitui a troca naturalmente impessoal e abnegada de antes. Foi-se o Yoga, ficando apenas o Karma associado a toda a vasta gama de emoções que este quadro sugere.
Os maiores Gurus da Índia são famosos por um tratamento especial concedido aos mais ambiciosos aspirantes. Sim,existe ahamkara (ego) dos dois lados - a única diferença sendo que o ego do mestre já foi polido pelos ventos do tempo, da prática e da subsequente realização. O ego do aspirante está cheio de protuberâncias irregulares e ele não reconhece-as em si mesmo.Precisa de uma voz, de um espelho ou de uma atividade que permita enxergá-las nitidamente, para em seguida removê-las assim como as manchas das panelas.Sem esse trabalho fica bastante delicado o estudo e a interpretação dos ensinamentos mais profundos contidos nos shastras (escritos sagrados).
Outra questão acontece quando o ego realmente acredita que está servindo.Se isto lhe ocorrer - cuidado - perigo adiante. O orgulho de servir pode se tornar doentio, ao ponto de ignorar a real necessidade do serviço. É como o orgulho de fazer muitos asanas ou passar várias horas "meditando"...
Passada a febre de protagonizar qualquer atividade que auto-enalteça nossas capacidades naturais ou duramente adquiridas, podemos enfim repousar na paz da entrega.
Esta não pede nada tangível aos olhos,mas concede a paz mental perene - o que segundo Swami Sivananda, é o único sinal palpável de"progresso espiritual". Sim,essa paz é bem diferente da neutralidade letárgica relacionada ao tama guna. Ela é viva, dinâmica e reluzente. Quem estiver na presença de uma pessoa por ela preenchida, poderá facilmente sentir a sua força.
Em um mundo (mental,físico,virtual) tão bombardeado por anúncios e propaganda em geral, o karma yogi é um agente silencioso e invisível. Seus atos podem não ser presenciados a luz do dia, mas o efeito da sua presença é suavemente sentido por aqueles que recebem a bênção de suas ações.
Na entrega do serviço a um bem maior que seus próprios caprichos, o ser humano aproxima-se da condição divina (divya akshara) que lhe é inerente.
नायमात्मा प्रवचनेन लभ्यो
न मेधया न बहुना श्रुतेन।
यमेवैष वृणुते तेन लभ्य-
स्तस्यैष आत्मा विवृणुते तनूं स्वाम्॥ ३॥
nāyamātmā pravacanena labhyo
na medhayā na bahunā śrutena |
yamevaiṣa vṛṇute tena labhya-
stasyaiṣa ātmā vivṛṇute tanūṁ svām || 3||
Você não pode obter o conhecimento da Alma Suprema
pelos meios da razão,erudição ou estudo dos Vedas
Somente através da piedade sem causa
Ele revela a sua própria pessoa
aquele que o aceita como Seu.
Mundaka Upanishad 3.2.3:
Por isso os verdadeiros yogis tornam-se leves e bem-humorados,
como bem demonstra a foto abaixo...
Om Tat Sat
Gopala
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| Swami Sivananda e discípulos em momento de descontração |






