quinta-feira, 24 de maio de 2012

Yoga & Servir

Algumas das maiores questões no caminho do Yoga poderiam ser associadas com duas palavras:
entrega e serviço.Só entregando servimos.Só servindo conseguimos entregar.

O ideal do Karma Yoga é mesmo um mistério. Muitos anos atrás,vivendo em um ashram,pude experimentar um pouco das sutilezas que envolvem esta prática. Recém chegado, meu primeiro trabalho era de ajudar a lavar a louça (e suas gigantescas panelas!) após as refeições. No início não gostava tanto da tarefa, pois acabava perdendo o horário da meditação noturna, que ocorria após o jantar.Mas tudo bem, ao sair a impressão era de ter a mente "zerada",com resultados certamente melhores do que trinta sofridos minutos sentado "em silêncio..."

Com o passar dos dias, já me achava o melhor lavador de panelas das redondezas,afinal retirava cada sujeirinha com precisão cirúrgica. Ah,missão cumprida! Eis que o diretor me mudou de "seção", passando agora a cuidar da compostagem do lixo etc. Mesmo processo: que cheiro ruim, mãos sujas, sacolas que arrebentavam, horários de prática sacrificados e assim por diante. E assim foi na carpintaria, no escritório e por fim (agora sim!) dar aulas de Yoga para os hóspedes do ashram...

Colocava uma roupa limpíssima, fazia pranayama por vinte minutos antes,dirigindo-me para a aula com a sensação de ter recebido uma licença prêmio. Como a cada aula os alunos mudavam, não havia espaço para desenvolver lá muita interação com eles. Da mesma forma, frequentemente um outro professor era chamado para dar a "minha aula",o que ajudava ainda mais nesse desapego. Logo percebi que a idéia de ser "o professor", com "meus alunos" não passava de uma colorida ilusão evanescente.

Não fossem as minhas experiências durante esse período,talvez estivesse acreditando até hoje nesse conto de fadas. Na verdade as pessoas buscam uma prática,um ensinamento e por último um professor. Se couber a este último inverter a ordem, ele pode muito bem levá-las a crer no contrário. A partir daí inicia-se uma poderosa combinação de necessidade de exercer poder da parte de um com a carência de orientação da parte de outro. Uma relação pessoal co-dependente substitui a troca naturalmente impessoal e abnegada de antes. Foi-se o Yoga, ficando apenas o Karma associado a toda a vasta gama de emoções que este quadro sugere.

Os maiores Gurus da Índia são famosos por um tratamento especial concedido aos mais ambiciosos aspirantes. Sim,existe ahamkara (ego) dos dois lados -  a única diferença sendo que o ego do mestre já foi polido pelos ventos do tempo, da prática e da subsequente realização. O ego do aspirante está cheio de protuberâncias irregulares e ele não reconhece-as em si mesmo.Precisa de uma voz, de um espelho ou de uma atividade que permita enxergá-las nitidamente, para em seguida removê-las assim como as manchas das panelas.Sem esse trabalho fica bastante delicado o estudo e a interpretação dos ensinamentos mais profundos contidos nos shastras (escritos sagrados).

Outra questão acontece quando o ego realmente acredita que está servindo.Se isto lhe ocorrer - cuidado - perigo adiante. O orgulho de servir pode se tornar doentio, ao ponto de ignorar a real necessidade do serviço. É como o orgulho de fazer muitos asanas ou passar várias horas "meditando"...

Passada a febre de protagonizar qualquer atividade que auto-enalteça nossas capacidades naturais ou duramente adquiridas, podemos enfim repousar na paz da entrega.
Esta não pede nada tangível aos olhos,mas concede a paz mental perene - o que segundo Swami Sivananda, é o único sinal palpável de"progresso espiritual". Sim,essa paz é bem diferente da neutralidade letárgica relacionada ao tama guna. Ela é viva, dinâmica e reluzente. Quem estiver na presença de uma pessoa por ela preenchida, poderá facilmente sentir a sua força.

Em um mundo (mental,físico,virtual) tão bombardeado por anúncios e propaganda em geral, o karma yogi é um agente silencioso e invisível. Seus atos podem não ser presenciados a luz do dia, mas o efeito da sua presença é suavemente sentido por aqueles que recebem a bênção de suas ações.

Na entrega do serviço a um bem maior que seus próprios caprichos, o ser humano aproxima-se da condição divina (divya akshara) que lhe é inerente.

नायमात्मा प्रवचनेन लभ्यो
न मेधया न बहुना श्रुतेन।
यमेवैष वृणुते तेन लभ्य-
स्तस्यैष आत्मा विवृणुते तनूं स्वाम्‌॥ ३॥

nāyamātmā pravacanena labhyo
na medhayā na bahunā śrutena |
yamevaiṣa vṛṇute tena labhya-
stasyaiṣa ātmā vivṛṇute tanūṁ svām || 3||



Você não pode obter o conhecimento da Alma Suprema
pelos meios da razão,erudição ou estudo dos Vedas
Somente através da piedade sem causa 
Ele revela a sua própria pessoa
aquele que o aceita como Seu.


Mundaka Upanishad 3.2.3:

Por isso os verdadeiros yogis tornam-se leves e bem-humorados,
como bem demonstra a foto abaixo...


Om Tat Sat
Gopala

Swami Sivananda e discípulos em momento de descontração

domingo, 13 de maio de 2012

Impressões

Vasanas ( वासना) são impressões indeléveis as quais carregamos em nosso campo mental/vibratório.
Nelas estão contidas o somatório de hábitos adquiridos nessa e também em outras vidas, chamados de sanskaras (não confundir com samsara,a roda de nascimentos e mortes).

Muitas vezes, a força dessas impressões se apresenta de forma surpreendente, especialmente quando fazemos um esforço consciente para movimentar-nos em uma nova direção ou conjunto de escolhas - o popular "mudar de vida". Ainda enquanto reconhecíveis, fica mais fácil lidar com elas, devido ao manjado percurso mental  já catalogado pela nossa percepção racional.

Mas para quem ingressa na "jornada espiritual" em voga, o conjunto de práticas exercido visa, em primeira instância,"dinamitar" várias dessas zonas de conforto. Alguns chamam isso de "quebrar o ego", no sentido em que ficamos face a face com aspectos não muito desejáveis,opostos ao que acreditamos ser um novo "código de ética" do praticante.

Ao passar um período em retiro, fora do seu habitat caseiro, a pessoa pode repentinamente ter "surtos" de euforia, revolta,saudades dos "bons tempos" ou "queridos amigos", desejos por comidas agora "proibidas", impulso sexual redobrado etc. etc. Na verdade não há nada de errado com tudo isso - eis a chamada "purificação".

Ela acontece, em diferentes graus, com qualquer aspirante. A questão é procurar compreender cada uma das manifestações dos antigos vasanas que vêm procurar refúgio no velho canteiro corpo/mente agora habitado por novos padrões ainda não bem alicerçados.

Meditação, estudo das escrituras, alimentação não-violenta, asanas, pranayama, exercícios devocionais e serviço altruísta constituem uma  receita básica na maioria das tradições orientais. Juntos (e não isoladamente) eles tendem a equilibrar a vasta gama física, energética, mental e emocional do ser humano.

Nos tempos antigos, estas práticas eram desenvolvidas em um contexto junto a natureza, em mosteiros ou em kulas (clans familiares) onde se observava uma disciplina de vida bastante cuidadosa. A higiene mental era um fator importante no desenvolvimento e realização do sadhana diário.

Hoje em dia, com a incrível "bagunça dispersiva" presente ao nosso redor, cultivar esses valores torna-se algo semelhante a iniciar o cultivo de uma horta ou plantas sensíveis dentro de um pequeno apartamento no meio da cidade. Água na medida certa, remexer a terra diariamente, expor ao sol nas escassas horas que este se fizer presente... Um trabalho labroso, sem dúvida. Porém a satisfação de dispor de todo o prana e sattwa nas condições mais adversas, faz valer a pena este esforço.

É comum praticantes no estágio inicial dizerem: "hoje estou precisando dar umas porradas" - "ninguém é de ferro, vou tomar um trago" - "que vontade de comer um hamburguer" - "chega de mantras, quero escutar um rock pesado " - "vou assistir a um filme de terror"... Se quisermos descobrir aonde residem nossos vasanas residuais, é só escutar a qualquer uma dessas vozes. Enquanto tivermos um olhar franco para essas manifestações, pode-se lidar com elas  de uma forma até bem-humorada.

Processos (in)conscientes de culpa,tirania e puritanismo podem, por sua vez, arremessar-nos do outro lado da cerca. O grande psicólogo Carl C.Jung, em um de seus ensaios, disse:
"... qualquer tentativa de criar uma atitude espiritual ao cortar ou suprimir os instintos humanos é uma falsificação.Nada é mais repulsivo do que uma espiritualidade furtivamente puritana.É tão desagradável quanto a sensualidade grosseira".

Nesse caso o praticante/professor que imagina ter dominado alguns de seus impulsos sanskáricos, passa a policiar seus alunos,amigos e outros professores no intuito de "desmascarar" qualquer comportamento que não esteja na perniciosa cartilha por ele traçada.

Esses indivíduos falarão em alto e bom tom acerca dos seus últimos achados,de sua ética irretocável, da relação especial que têm com os seus mestres, das suas interpretações dos ensinamentos desses últimos e assim por diante. Ao serem contrariados, suas reações serão sempre febris, defendendo os seus evangelhos até a última gota.Compaixão, tolerância e equanimidade não constam em seus dicionários práticos.

Tanta confusão por mera falta de auto-compreensão. Aceitar as nossas próprias dificuldades significa afrouxar o colarinho e receber com discernimento aquilo que nos parece inadequado em outras pessoas.
Isso não corrobora com a neutralidade passiva em relação ao adharma, embora somente uma mente clara e bem treinada saberá reagir na medida justa perante tais circunstâncias.

Yoga é um constante cultivo das mais sublimes virtudes, assim como um progressivo desvendar dos piores vícios do ser humano. Como exaustivamente ensinou Buddha, é importante estabelecer um "caminho do meio", para que não haja uma agressão para consigo mesmo ou terceiros.

Ao analisar o nosso amplo campo de vasanas e sanskaras , podemos chegar a uma nítida visão de quem não somos. Reforçando a nossa identidade maior - o Atma - assim como as qualidades inerentes ao aspecto elevado de nossa natureza transitória, as encenações infantis da persona sanskárica ficarão cada dia mais sem graça. Pouco a pouco nossos hábitos diários entrarão em harmonia natural com o ideal das nossas práticas, por fim descartando aquele alter-ego obscuro e hipócrita.

Para os incrédulos, esse estado não impede ninguém de levar uma vida "normal" na sociedade - ao contrário, muitos grandes yogis são perfeitos "agentes secretos" nesse mundo!

Mais uma vez,confiança no Guru, nos ensinamentos, leveza e empatia fenomenal são algumas das condições necessárias ao longo do (longo) caminho...

Om Tat Sat
Gopala

 Inspiração: Bhagavan Sri Ramana Maharshi



quarta-feira, 2 de maio de 2012

Cultura e Essência

Indianismo, Tibetanismo,Orientalismo e outros sintomas semelhantes ocorrem quando um buscador (a) se apaixona pela cultura-mãe da escola de meditação/yoga que escolheu praticar.

Se já parece incrível ver pessoas "decoradas" de panos, malas, tilaks e outros adornos por essas bandas, tanto mais vemos esse fenômeno efervescente na Índia, por onde pude viajar e sentir na pele a impressão dos "nativos"... Estando vestido com um kurta e um doti num trem entre Dehli e Rishikesh (grande point dos seekers !) fui interpelado por uma cordial senhora que em bom inglês me perguntou: "Excuse me sir, are you a saint, guru or someone that I should know"? - "Desculpe-me, mas seria o senhor algum santo, guru ou alguém que eu devesse conhecer"?

Fiquei pasmo e constrangido ao mesmo tempo, afinal todos me haviam dito que se eu fosse a um lugar sagrado, deveria estar vestido com as vestimentas adequadas para tanto. Na realidade, os próprios indianos só vestem as chamadas "roupas devocionais" quando visitam um templo propriamente dito, ou participam de algum ritual vêdico que peça esta indumentária. Certamente as mulheres serão mais vistas no dia a dia desfilando seus coloridos saris, mesmo assim de um modo geral sem chamar a atenção sobre si mesmas.

O ponto curioso da "busca" ocorre quando o aspirante ocidental decide encarnar um personagem "bollywoodiano", trazendo-o na bagagem até o seu país de origem. Conheci um italiano que após muitos anos vivendo com os naga-babas (sadhus que vivem nus e cobertos de cinzas) voltou a Itália e saiu do avião envolto em uma pele de leopardo, carregando uma caveira em mãos!

Sem tantos exageros, podemos contemplar o forte impacto destas culturas nas pessoas que se deixam envolver com elas. Embora em muitos a troca do cigarro (ou baseado) por um bastão de incenso já seja louvável por si só, o que tenho sentido é a tomada de uma fake identity com a qual fica tão mais fácil acobertar o "velho eu" - que ainda não abandonou muitos de seus velhos hábitos, ficando agora escondido atrás do seu novo disfarce. Quando uma pessoa recebe um nome iniciático em sânscrito, por exemplo, esse passa a ser incorporado até nos negócios ou campanhas publicitárias "mundanas".

Professores que se auto-denominam "portadores da tradição" ou "mestres"(ainda que não usem este adjetivo) na maior parte dos casos são confusos buscadores que não se submeteram a um real treinamento
ou "egotomia", como dizia Swami Sivananda. Devido a uma certa fluência verbal ou carisma, eles conseguem atrair um número de alunos - o que na Índia é chamado "blind leading blind relationship" - relação de um cego conduzindo outro cego. A natureza humana gosta de ser reconhecida por seu diferencial, mas este deveria ser adquirido por mérito conquistado e não futilmente forjado.

"O hábito não faz o monge", já aponta o cristianismo.

Semelhantemente para a música da Índia, que em nosso país ainda causa um certo "efeito novela" na população em geral .

Há uma atmosfera de "festa exótica" associada às apresentações de "música indiana" que ocorrem em encontros místicos, centros de yoga e afins. Por isso muitas vezes (até quando verdadeiros artistas indianos visitam o nosso país, desprovidos de toda essa parafernália) o olhar popular têm dificuldade em reconhecer a boa música de fato, afinal "malabaristas de plantão" conseguem distrair mais facilmente o povo.

Em parte por ingenuidade e por maior parte auto-promoção,tais indivíduos alimentam o novo mercado da mantra music no país. Seria prudente (esse é apenas o meu desejo) que muitos deles passassem um pouco mais de tempo preparando-se para a exposição pública que geralmente se faz irreversível.

Ao mesmo tempo, fico feliz que ultimamente algumas honrosas iniciativas tem conseguido trazer bons músicos ao Brasil, em palcos dignos do seu quilate.Igualmente para músicos brasileiros que primam em aperfeiçoar-se aos pés destes últimos. Em ambos casos, a reação do público leigo tem sido excelente, sutilmente absorvendo as diferenças vis-a-vis ao outro grupo.

Essas reflexões chegam com a seguinte proposta: A busca de uma expressão simples naquilo que desenvolvemos sinceramente, algo que faça jus ao carinho com o qual Gurus transmitiram seu precioso conhecimento a todos nós. Embora em uma primeira etapa seja normal "brincar de bonecas", é crucial o amadurecimento da relação que criamos com a nossa prática.

Observando a frugalidade de seres como Ramana Maharshi, Ramakrishna Paramahansa e tantos outros, percebe-se o quanto eles eram desprovidos de um ego auto-afirmativo.

Embora seja difícil imitar este comportamento na sua totalidade, podemos tomar inspiração nele, trazendo assim mais sattwa (harmonia, serenidade) ao nosso propósito.

Nessa ótica, os artigos e idéias culturais mencionados se tornarão parte e forma da nossa personalidade real ... mas em suaves tons pastéis, perfumados pela doce fragrância da autenticidade.

Om Tat Sat
Gopala



segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ishta Devata

Ultimamente têm se visto, talvez mais do que nunca,uma super-exposição das mais variadas representações iconográficas dos panteões hindus, budistas,africanos etc.

Como parece comum, as pessoas acham "fofos" esses "bixinhos da sorte", dentre outras definições popularescas encontradas por aí. Geralmente eles aparecem acompanhados com alguma mensagem estilo "corrente" ou "auto-ajuda", para reforçar a imagem do sortilégio.

Na verdade, poderíamos dizer que toda e qualquer imagem nada mais é do que uma representação da própria mente humana, que assume uma forma "supernatural", enaltecendo determinados aspectos já encontrados na cultura nativa do seu habitat. Embora os céticos prefiram esta definição arquetípica racional, existe algo mais por detrás do simbolismo das chamadas deidades.

Partindo do princípio (encontrado no Yoga) que o universo físico tangível seria uma densificação dos planos astrais e causais do universo cósmico inter-dependente, poderíamos acreditar que existe sim uma vasta gama de seres "extra-terrenos", além do sentido alienígena ou inter-planetário da palavra.

Algumas pessoas sensitivas (médiuns) entram em contato direto com seres desencarnados como podemos verificar no espiritismo de Alain Kardec. Em culturas tribais, pajés ou shamans conseguem acessar determinados "espíritos", com objetivos de cura medicinal ou para receber orientação em áreas que transpassam a racionalidade humana. Na África e nas Américas, encontramos o ancestral culto aos Orixás como seres evoluídos de sabedoria. Em todo o planeta, rituais eram (e ainda são) consagrados a deidades locais para promoverem uma boa colheita ou assegurarem a saúde e manutenção de seus povos.

Na Índia e Tibet também encontramos estas mesmas manifestações (naturalmente com outros nomes), mas um ponto crucial das culturas Vêdica e Tântrica é o culto interno ao próprio Atma, que pode ser invocado pelo intermédio de um(a) Ishta Devata ou deidade tutelar pessoal. Vale frisar que este aspecto, também chamado de Ishwara, já se encontra dentro do próprio devoto - estando paralelamente acessível nos planos sutis (astral e causal) ou espirituais. O ser humano vive em contato com todas as esferas - seja durante a vigília, o sono ou a meditação profunda.

No conceito vedântico, aprendemos que Brahman é a realidade suprema, além de todos os nomes e formas.Através da agência de Maya, este assume o aspecto de Ishwara - com atributos "humanos"  aprazíveis a natureza do aspirante. Nesta tradição, a deidade em questão é invocada pelo seu mantra respectivo, que deve por sua vez ser recebido através da iniciação (diksha) formal  dentro de uma linhagem de Gurus ou Rishis para que possa desvendar seu poder transformador (mantra shakti).

Em Yoga é dito que uma vez alcançada a realização do Savikalpa Samadhi (aonde ainda existe uma diferenciação entre o sujeito e o objeto) a última etapa é chamada Nirvikalpa Samadhi (quando há um desaparecimento da consciência do "eu" individual).

Na tradição do Tantra, as práticas culminam em um ponto em que o praticante literalmente se transforma na própria deidade. Assim compreendemos que esta relação é bastante íntima, devendo ser respeitada por praticantes e leigos afins.

Ganesha, Lakshmi, Krishna, Shiva,Durga,Rama,Saraswati, Buddha,Tara
dentre tantos outros, são nomes que carregam em si a força do tapasya (austeridades prolongadas) e da realização de incontáveis Yogis. As suas imagens - embora muitas vezes alegóricas e sem maiores cuidados artísticos -  trazem esta mesma força, pois enquanto estivermos na dualidade, nama / rupa (nome e forma) são fatores indissociáveis.

Om Tat Sat
Gopala




quarta-feira, 21 de março de 2012

Meditação

Afinal, como saber se estamos realmente meditando?

Quando iniciei esta prática "formalmente", há mais de 20 anos atrás, me foi dito que em algum momento
a mente "se desligaria" de suas atividades comuns, dando espaço à experiência da meditação.

Um renomado Swami indiano tinha o costume de sugerir: "Quando você sentar para meditar, procure não pensar no macaco"... e os mais ingênuos passavam longos períodos procurando se desvencilhar da jocosa figura do macaco.

O fato é: qualquer sugestão produz uma profunda impressão em nosso campo mental, ficando difícil "não pensar em nada", assim como sendo igualmente cansativo manter a mente fixada "em um único objeto". Parece que a "Dona Mente" não foi feita para esse tipo de coisa!

Outro exemplo: Algumas escolas propõem longas sessões de visualizações criativas,chamando-as igualmente de meditação. Se o propósito é sair do campo imaginário, como então levar o aparato mental ao seu último degrau criativo? Pode ser que através deste o praticante chegue a uma exaustão dos padrões psíquicos ordinários, passando a um estado conseguinte de no-mind (não-mente).

Seja como for, algum esforço dinâmico (ativo) é requerido,ainda que sob o disfarce da contemplação passiva. Para que isso aconteça, precisamos tomar cuidado com a tendência mental de "construir castelos no ar" ou seja, permanecer na esfera dos devaneios, que podem trazer uma certa sensação de conforto ou consolo imediatos.

Tenho observado em mim mesmo o quanto é fácil "escorregar" para dentro deste plano.
Basta perder o o ponto exato de equilíbrio entre o fazer e o deixar acontecer. Quando trabalhamos com uma técnica específica, tradicional de meditação, a tendência é de desejar que "alguma coisa aconteça" no decorrer das intermináveis sessões em que (não) ficamos basicamente repetindo a mesma coisa over and over.


Tal qual uma criança que espera um brinquedo de presente,o meditante fica sonhando com o tipo de experiência extra-sensorial que recompensará seu "merecido esforço". É verdade que várias tradições insistem em "acumular méritos", através da contabilização de malas de mantras. O sentido mais profundo destas práticas é de atenuar o ego individual, mas devido a notória ansiedade de muitos praticantes aqui no Ocidente, estas acabam resultando no efeito contrário ao desejado.

Em meio as inúmeras ilusões decorrentes desse processo, talvez uma das mais fortes seja a noção romanceada de "eu sou um(a) yogi(ni)" ou "eu medito". Analisando estas afirmações, percebemos a existência de um ego auto-afirmativo de primeira ordem. Soaria distinto sugerir "estou praticando Yoga" ou "pratico o exercício da meditação". Nesse caso, admitimos a nossa condição de estudantes / praticantes.

Estas observações levam a reflexão de que se desejamos engajar-nos no caminho aprofundado da meditação, precisamos rever alguns hábitos pessoais, que incluem higiene e alimentação, assim como preferências e padrões de pensamento. Obviamente já encontramos uma incrível bibliografia relacionada em obras como Yoga-Sutra, Dhammapada, Tao-te-King e outras. Os antigos procuravam, antes de mais nada, aperfeiçoar todas as nobres qualidades virtuosas do ser humano,considerando-as indispensáveis para a prática espiritual. Sem estas ficamos todos aprisionados na eterna busca da "inatingível perfeição".

Swami Sivananda, dentre os seus muitos conselhos sensatos, dizia: "Não é necessário atingir uma ética perfeita para começar a meditar". No sentido prático de que todo o esforço direcionado a auto-perfeição
afetará positivamente a nossa relação com o "mundo". Mas ambos esforços devem ser trabalhados paralelamente,assim como as duas asas de um mesmo pássaro.

A palavra final para quem pratica é: desapego (vairagya).Desapegar-se especialmente daquela idéia que somos o agente condicionado de todas as ações e reações. Essa vã impressão de estar driblando o karma gera uma considerável dose de sofrimento e frustração. Aceitar as condições reais e imediatas nas quais nos encontramos e procurar fazer o melhor uso delas, silenciosamente, é o caminho da sensatez.

Uma vez elucidado esse propósito e seus aferentes, a meditação acontecerá naturalmente,
assim como uma mente exaurida cai em sono profundo.O Ser-superior (Paramatma)
é experienciado como verdadeiro agente condutor.

Om Tat Sat
Gopala